Marinho
Pinto Bastonário da Ordem dos Advogados na cerimónia de abertura do ano
judicial:
«Este é o
quinto ano consecutivo que, em representação dos advogados portugueses,
participo nesta cerimónia.
Os balanços
que sucessivamente aqui tenho feito não foram positivos e o deste ano também o
não será.
A situação
da justiça e do país tem vindo a degradar-se, sem que se vislumbrem soluções
que restabeleçam a confiança do povo português no nosso sistema judicial e no
sistema político vigente.
A mentira, a
demagogia e a irresponsabilidade foram erigidas em métodos privilegiados de
actuação política.
As
controvérsias estéreis substituíram com êxito o debate sério sobre os grandes
problemas do país.
Vale tudo
para ganhar eleições e, uma vez ganhas, logo os compromissos eleitorais são
ignorados.
Há menos de
um ano apenas, o governo de então caiu porque ousara propor medidas de
austeridade muito mais suaves para o povo e para a economia do que aquelas que
agora são impostas por aqueles que então se opunham a tais medidas e garantiam
solenemente que nunca fariam coisa semelhante.
Algumas das
medidas de austeridade que estão a ser impostas ao país nem sequer foram
exigidas pela TROIKA nem constam do acordo com Portugal.
Perdeu-se
todo o respeito pelos eleitores.
Muitas
dessas medidas respondem tão só a uma agenda de interesses cuidadosamente
ocultada durante os debates político-eleitorais que precederam a mudança de
governo.
A crise
também está a ser usada como pretexto para satisfazer antigas reivindicações
dos sectores mais retrógrados dos nossos empresários, sobretudo daqueles que
não foram capazes de se adaptar às exigências da modernidade e persistem
agarrados aos arquétipos do mais primário liberalismo económico.
Em Portugal
sempre foi mais fácil ser patrão do que ser empresário.
Mais fácil e
mais compensador.
Os direitos
laborais e sociais dos cidadãos deste país não são a causa desta crise nem
constituem um obstáculo sério à sua superação.
Todavia
parece que a receita para a vencer passa pelo empobrecimento generalizado da
população.
Todos temos
a percepção de que os sacrifícios que estão a ser impostos aos portugueses são
desproporcionados em relação à gravidade da situação e não são equitativamente
distribuídos.
A uns
exige-se mais do que a outros e, em muitos casos, aqueles a quem mais se exige
não são, seguramente, os que mais podem contribuir.
O povo
português está no limite das suas capacidades e começa a dar sinais preocupantes
de não suportar mais sacrifícios.
Há, de
facto, um limite para os sacrifícios e esse limite já foi ultrapassado sem que,
aparentemente, os nossos governantes se preocupem com isso.
Um perigoso
sentimento de revolta está a generalizar-se em vastos sectores da população,
não tanto devido ao peso das medidas de austeridade que lhes são impostas mas
sobretudo pelo sentimento de injustiça que provocam.
Nem todos
contribuem para a superação da crise e, principalmente, nem todos contribuem
segundo as suas capacidades.
Há sectores
e entidades que se isentaram dos sacrifícios, sem qualquer justificação
aceitável à luz dos mais elementares princípios de igualdade e de equidade.
Não se
compreende por que é que os funcionários públicos hão de ser mais sacrificados
do que os outros sectores da população e, sobretudo não se compreende por que é
que dentro da função pública há de haver sectores que ficam isentos de algumas
medidas de austeridade e outros não.
Sejamos
claros e justos: se é em respeito pela independência do Banco de Portugal que
os quadros e funcionários desta instituição não serão obrigados a prescindir
dos subsídios de férias e de Natal, então por que é que não se aplica o mesmo
critério a outros órgãos do estado onde a independência é também um requisito
para bom desempenho das suas funções?
Haverá
entidade onde a independência seja mais necessária do que nos Tribunais?
Então por
que é que os magistrados não tiveram tratamento idêntico ao dos quadros e
funcionários do Banco de Portugal?
A
independência do Banco de Portugal é mais importante para o governo do que a
independência dos tribunais?
Por outro
lado, as mesmas castas de privilegiados continuam a auto-isentar-se de
sacrifícios e, mais do que isso, continuam a banquetear-se indiferentes aos
sacrifícios impostos ao povo português.
As
gigantescas remunerações que gestores transformados em políticos e políticos
transformados em gestores se atribuem uns aos outros em lugares e cargos para
que se nomeiam uns aos outros constituem nas circunstâncias actuais uma
inominável agressão moral a quem, muitas vezes, é obrigado a cortar na
satisfação de necessidades essenciais.
Há gestores
de empresas, algumas delas até há pouco controladas pelo estado, que ganham num
ano aquilo que a maioria da população só conseguiria se trabalhasse mais de um
século ininterruptamente.
E isso,
pressupondo que auferia um ordenado de mil euros mensais, pois aqueles cujas
remunerações estão mais próximas do salário mínimo teriam de trabalhar mais de
duzentos anos, consecutivamente, para conseguir o mesmo rendimento.
As nomeações
para cargos públicos de amigos e familiares, de familiares de amigos e de
amigos de familiares multiplicam-se escandalosamente, criando no aparelho de
estado um gigantesco polvo clientelar cujos tentáculos se estendem já a
empresas privadas onde o governo detém influência política.
Por outro
lado, continua-se a alienar património público, em alguns casos com enorme
valor estratégico para o interesse nacional, com o argumento de que o estado
não deve estar na economia.
Mas,
estranhamente, essa alienação em alguns casos é feita a empresas propriedade de
outros estados.
Ou seja, o
estado português não pode deter participações em empresas portuguesas mas se
for um estado estrangeiro já pode.
Na área da
justiça, está a seguir-se uma política errática marcada pelo populismo e por
uma chocante incapacidade de responder adequadamente aos principais problemas
do sistema judicial.
O governo
parece mais preocupado em responder na comunicação social às notícias sobre os
problemas da justiça do que em encontrar verdadeiras soluções para eles.
O processo
de desjudicialização, iniciado há vários anos, está a ser acelerado pelo actual
governo com vista a retirar a justiça dos tribunais para instâncias não
soberanas e até para entidades privadas cujo escopo é o lucro.
Este governo
está declaradamente empenhado em criar condições para que em torno da justiça
floresça o mesmo género de negócios privados que outros governos criaram em
torno da saúde, com destaque para essa justiça semi-clandestina que são os
tribunais arbitrais em que as partes escolhem e pagam aos pseudo-juízes.
Essa justiça
privada já é legalmente obrigatória para certos litígios, impedindo-se as
partes de acederem aos tribunais do estado.
Além disso,
o anunciado encerramento de cerca de meia centena de tribunais em todo o país
insere-se nessa estratégia de desjudicialização.
A partir de
agora, as pessoas, além das elevadas custas judiciais que lhes são exigidas,
além de todas as dificuldades que lhes são levantadas para aceder à justiça,
ainda terão de percorrer, em certos casos, centenas de quilómetros para se
deslocarem a um tribunal, sendo que em algumas regiões precisarão de dois dias
para isso, caso recorram exclusivamente a transportes públicos.
Com essas
medidas, os tribunais deixarão de ser símbolos da soberania e da autoridade do
estado, deixarão de ser o símbolo da justiça e da paz social, para serem apenas
meras peças que burocratas e políticos sem sentido de estado movem nos
tabuleiros das políticas conjunturais.
É preciso
proclamar bem alto que as pessoas do interior do país devem ser tratadas de
acordo com os imperativos da dignidade humana e não como números dos gráficos
contabilísticos.
É preciso
proclamar bem alto que a justiça não é um bem de mercado e não pode ser gerida
segundo as leis da oferta e da procura.
A
necessidade de justiça não é elástica e, portanto não pode comprimir-se ou
expandir-se com sucede com qualquer mercadoria.
Os pequenos
concelhos do interior do país têm tanto direito a ter um tribunal como as
grandes cidades do litoral.
A justiça,
sobretudo a justiça penal, tem de ser administrada nas comarcas onde ocorreram
os factos típicos, pois de outra forma não se realizarão cabalmente as
finalidades de prevenção geral e de pacificação social.
A justiça
não pode abandonar o interior do país, pois isso representaria um perigoso
retrocesso civilizacional e uma perigosa limitação política no acesso aos
tribunais.
Por outro
lado, anunciam-se, a um ritmo frenético, alterações legislativas a alterações
legislativas feitas por outros governos.
Um delírio
populista apossou-se do legislador.
De repente
descobriu-se a fórmula mágica que vai acabar com a impunidade absoluta da
corrupção, que vai eliminar os expedientes dilatórios e vai pôr fim aos atrasos
processuais.
Finalmente
os criminosos vão ser todos apanhados - pelo menos por câmaras de filmar - e os
crimes até já nem vão prescrever.
A
investigação criminal deixará de se preocupar com a recolha de provas materiais
dos crimes (que dá trabalho e custa dinheiro) para se orientar apenas ou
preferencialmente para a obtenção de confissões – esse meio de prova que tão
bons resultados deu na Inquisição, nos processos de Moscovo e nos tribunais
plenários do Estado Novo.
Os tribunais
passarão a poder condenar um arguido não pelo que ele disser em julgamento
perante o julgador mas pelo que ele tiver dito aos acusadores durante as investigações.
Os juízes
deixarão de se preocupar apenas com os julgamentos e com a condenação ou
absolvição dos acusados e passarão, eles próprios, a preocuparem-se com a
investigação dos crimes e a acusação dos suspeitos.
Com este
governo os juízes deixarão de ser apenas julgadores e serão também procuradores
e polícias, pois passarão a poder aplicar, durante o inquérito, medidas de
coacção e de garantia patrimonial mais graves do que as requeridas pelo próprio
Ministério Público, incluindo a prisão preventiva.
O governo
pretende que, mesmo quando, durante o inquérito, os investigadores não
considerem a prisão preventiva de um suspeito necessária ou útil para as
investigações, o juiz a possa decretar por mero arbítrio pessoal.
Assim, o
juiz de instrução, em vez de constituir uma garantia para os direitos dos
cidadãos, transformar-se-á numa ameaça a esses direitos; em vez de impedir os
abusos persecutórios dos investigadores, passará a exacerbá-los ainda mais; em
vez de ser o juiz das liberdades passará será um juiz-polícia.
Com as
alterações que se anunciam no domínio do processo penal vai aumentar ainda mais
o caos nos nossos tribunais, pois nenhum sistema judicial poderá funcionar na
selva legislativa em que vivemos.
E o mesmo se
passa com o processo civil para onde se pretende transferir os paradigmas
processuais do direito público.
Num processo
de partes pretende-se eliminar o princípio dispositivo em benefício de um
triunfante princípio inquisitório mecanicisticamente transposto do processo
penal.
Há, em
Portugal - todos o sabemos - uma justiça para ricos e outra para pobres.
Mas, ao
contrário de certos discursos populistas, isso não deriva, do facto de os ricos
serem privilegiados nos nossos tribunais, mas sim da circunstância de aos
pobres não estar garantida uma efectiva protecção jurídica nomeadamente no que
se refere ao direito de defesa em processo penal.
O mal da
nossa justiça não está no facto de os ricos defenderem com relativo sucesso os
seus direitos e interesses em tribunal, mas sim no facto de os pobres não o
poderem fazer porque o estado não lhes garante condições para isso.
Porém,
agora, pretende-se acabar com essa desigualdade, nivelando a justiça por baixo,
ou seja, generalizando a justiça dos pobres.
Durante
décadas, os cidadãos mais carenciados foram defendidos preferencialmente por
advogados estagiários sem qualificações profissionais para proporcionar uma
efectiva defesa aos arguidos, e mesmo por defensores ad hoc que nem sequer
tinham formação jurídica, como acontecia frequentemente com o recurso a
funcionários judiciais chamados para fazerem de Advogados em audiências de
julgamento.
Uns e outros
limitavam-se, em regra, a oferecer o merecimento dos autos e a pedir justiça,
abandonando os arguidos ao arbítrio dos magistrados.
Nesse tempo
ninguém falava em alterar o sistema de apoio judiciário; ninguém se preocupava
com essa indignidade; nenhum magistrado se pronunciava publicamente contra essa
ignomínia.
Porém, agora
que, graças à acção da Ordem dos Advogados, esse modelo foi alterado no sentido
de dignificar e tornar efectivo o direito de defesa, todos os dias aparece
alguém a propor alterações.
O apoio
judiciário até já foi tratado no congresso de um sindicato de magistrados.
Alguns juízes
querem que a defesa dos cidadãos mais desfavorecidos seja efectuada por
funcionários ou por juristas avençados, os quais, como é óbvio, logo poriam os
seus interesses próprios acima dos direitos dos seus representados.
Num tal
cenário, haveria, obviamente, menos recursos, menos contestações, menos
testemunhas para inquirir, menos diligências de prova a realizar e, obviamente,
mais confissões; haveria mais vantagens para o defensor/funcionário e para os
magistrados e mais prejuízos para os cidadãos.
Há muita
gente empenhada em aliciar os advogados oficiosos para as vantagens do estatuto
de funcionário.
A campanha
de descrédito que o próprio governo tem levado a cabo contra os advogados que
trabalham no âmbito do sistema de acesso ao direito e os atrasos nos pagamentos
dos respectivos honorários são sintomas claros de um chocante desrespeito pelos
direitos das pessoas economicamente mais desfavorecidas.
Portugal é
um dos países da União Europeia que menos gasta em apoio judiciário, mas o
governo ainda quer gastar menos – obviamente, degradando ainda mais essa
dimensão essencial do estado de direito.
Segundo o
Conselho da Europa, o estado português gasta em apoio judiciário uma média de
331 euros por processo, o que constitui o montante mais baixo de praticamente
todos os países da antiga Europa Ocidental, bem distante, por exemplo, da Suíça
(que gasta 1.911 euros por processo), da Irlanda (1.423 €), Inglaterra e País
de Gales (1.131 €), da Holanda (1.029 €), da Itália (737 €), do Luxemburgo (714
€), da Finlândia (663 €) e da Escócia (537 €), entre outros.
Abaixo do
nosso país só estão a Arménia, a Bulgária, a Estónia, a Geórgia, a Hungria, a
Lituânia, a Moldávia, o Montenegro, a Rússia, a Turquia e São Marino.
Apesar do
sombrio diagnóstico que acabo de traçar, nem tudo está mal na justiça
portuguesa.
Quero aqui,
elogiar publicamente a acção do Tribunal Constitucional pelo insubstituível
trabalho que tem realizado na defesa da Constituição da República Portuguesa.
Há momentos
em que ficar calado é mentir.
E eu
mentiria, hoje e aqui, se em nome dos Advogados portugueses, não prestasse
homenagem a todos os magistrados que exercem funções no Tribunal Constitucional
e que, recatadamente, quase com humildade, recusando os protagonismos fáceis
que outros tanto procuram, vão cumprindo a sua difícil função de fazer
respeitar a Constituição e, assim, reforçar e prestigiar o estado de direito.
Se a
Assembleia da República é a casa da Democracia o Tribunal Constitucional, por
mérito próprio, é o coração do estado de direito pois é aí que palpitam algumas
das suas dimensões fundamentais.
Sem o
Tribunal Constitucional o estado de direito estaria mais fragilizado e a
democracia seria muito menos saudável.
Sem ele a
Constituição da República, muito provavelmente, não passaria de uma folha de
papel.
Por fim,
quero dirigir uma palavra de despedida ao Sr. Procurador-Geral da República,
pois, creio que é a última vez que, nessa qualidade, participa nesta cerimónia.
V. Exa. É um
magistrado judicial que ao longo de mais de 40 anos de carreira honrou a
magistratura portuguesa e dignificou a justiça e os tribunais.
Em mais de
cinco anos como Bastonário da Ordem dos Advogados, nunca encontrei nenhum
colega que consigo tivesse trabalhado nas várias comarcas do país aonde prestou
serviço que não me elogiasse as suas qualidades de magistrado, mas também de
carácter e, sobretudo, o respeito com que sempre tratou os Advogados.
V. Exa. nunca
precisou de fazer exibições de poder para ser respeitado pelos Advogados com
quem trabalhou.
São assim os
grandes magistrados.
Como PGR, V.
Exa. sempre teve um relacionamento exemplar com a Ordem dos Advogados e comigo
próprio, muito acima das divergências e diferenças de opinião sobre os
problemas da justiça.
Por tudo
isso, aqui lhe tributo publicamente, a homenagem e o respeito da Advocacia
portuguesa.
Com a sua
jubilação, Sr. Procurador-Geral da República, estou certo que a justiça
portuguesa vai ficar mais pobre.»
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